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O Triângulo Perfeito

Um blogue de pessoas imperfeitas. A viver num triângulo perfeito.

O Triângulo Perfeito

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As batalhas que travamos

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Há muitos anos tive uma colega de trabalho com um feitio intragável. Era competente e profissional, mas achava-se superior e não perdia opotunidade para tecer duras críticas ao desempenho dos outros.

Eu ainda era novata no ensino e tinha pouca experiência ao nível do secundário (até ali tinham-me sempre calhado turmas do básico) por isso fartava-me de estudar, pesquisar e ouvia sempre com muita atenção as sugestões dos colegas mais experientes.

Confesso, contudo, que a frontalidade e agressividade dessa colega me melindravam bastante.

Recordo uma das vezes em que pedi opinião sobre um teste que tinha feito para a minha turma. Enviei por mail para todos os colegas darem a sua opinião. No dia seguinte, essa mesma colega vem ter comigo e diz-me:

- O teu teste está uma grande merda.

E isto não é um recurso estilístico da minha parte.

As palavras foram mesmo essas.... Acompanhadas da respetiva explicação (valha-nos isso), acerca dos erros de formatação, tipo de letra, texto, tamanho dos carateres, estética, ordenação das questões, etc.

 

Como sou uma pessoa que gosta de aprender, foquei-me apenas na parte que me interessava, que era a explicação dos meus erros, e tentei melhora-los.

Tentei esquecer a parte do "grande merda", que me ofendia bastante. E foi sempre esta a minha postura ao longo do ano.

Hoje, sinto um grande orgulho pelo esforço que fiz, e é com felicidade que me cruzo com alguns alunos desse tempo e que os ouço dizer que eu fui "a melhor professora" tiveram. Frases como "foi consigo que aprendemos a responder bem às questões de desenvolvimento", ou "o professor da universidade perguntou quem tinha sido a minha professora  porque vê que eu estou bem preparado." Isso faz-me acreditar que alguma coisa de jeito deve ter feito naquele ano.

 

Adiante. 

Anos mais tarde, vim a descobrir que a dita "colega", tinha um passado bastante difícil, que já tinha vivido momentos muito complicados, que estava a atravessar um problema de saúde muito chatinho, etc.

Eu sei que as batalhas que travamos ao longo da vida, acabam por formatar um pouco aquilo que somos e como reagimos.

Até eu, que já perdi pessoas queridas, já "matei" alguns sonhos, que desde 2013 (con)vivo com uma doença chata... até eu, sou hoje uma pessoa mais amarga do que era dantes. 

Fazendo uma análise, reconheço que já não trato as pessoas com a mesma gentileza do que antigamente.

Talvez já não me entregue tanto, já não insista tanto, já não tenha tanta paciência para os outros.

Por isso, tento dar um desconto às atitudes daquela colega.Tento não guardar rancor.

 

O meu irmão teve na sua capa de facebook durante algumas semanas uma imagem muito bonita que dizia:

 

"Seja gentil, pois todos estão travando as suas batalhas".

 

O meu irmão é um empresário de sucesso. Uma pessoa inteligentíssima, pro-ativa, ambiciosa e generosa. 

Há uns anos lutou contra um cancro, e por isso, sabe muito bem daquilo que fala, quando menciona as ditas "batalhas".

Certamente, que em alguns pontos essa luta o modificou. Talvez ele já não seja a mesma pessoa. Quese de certeza que não. 

E é por isso que ele tem esta clarividência. A noção de que cada um está travando a sua luta e por isso, devemos ter paciência, ser cordiais e respeitar os outros.

 

 

Hoje, cheguei ao infantário do meu filho e uma das funcionárias implicou comigo porque me faltavam 2 euros para pagar os custos da Festa de Final de Ano.

Como não trazia carteira e vinha cheia de sacos, pedi-lhe para acertar o valor em falta hoje à tarde, ao qual a senhora anuiu com má cara.

Ás vezes apetece-me responder de igual modo, ou fazer má cara também. Até porque a senhora nem sempre é agradável.

Mas tento sempre recordar-me que "cada um está travando as suas batalhas".

Fui gentil.

 

 

Todos os momentos maus que vivemos na nossa vida ficam marcados no coração, como se fossem uma tatuagem.

E às vezes esses traumas manifestam-se de uma forma estúpida, através de agressividade para com os outros.

Mesmo que seja inconsciente, o ato de ofender, gritar ou insultar é uma forma de escape, de libertação do stress acumulado, das mágoas que tentamos gerir cá dentro.

 

Quando saímos à rua... saímos nós mais os nossos medos, as nossas angústias, as nossas frustrações.

E no momento em que dialogamos com alguém, muitas vezes libertamos tudo isso.

Para muitas pessoas, essa é a única forma de (sobre)viver. 

Tento sempre recordar-me da frase que coloquei acima. Tento ser empática com os outros.

 

Ás vezes ponho-me a pensar nisto: fala-se tanto da guerra, das bombas atómicas e dos mísseis.

Quando as maiores guerras (que são a base e explicação para todas as outras) estão a ser travadas dentro de nós.

Se dessemos trégua às nossas lutas interiores, talvez o mundo fosse um lugar melhor.

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