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O Triângulo Perfeito

Sou uma mulher no meio de três homens. Vértices de uma constelação de amor, eles são o meu triângulo perfeito.

O Triângulo Perfeito

Sou uma mulher no meio de três homens. Vértices de uma constelação de amor, eles são o meu triângulo perfeito.

A solidão mora ao lado

Fevereiro 17, 2017

O Triângulo Perfeito

Esta semana, estava na fila de uma caixa de hipermercado à espera para pagar as minhas compras quando a senhora que estava à minha frente (e que, até ali, tinha estada serenamente calada) começou a falar:

 

- Sabe - disse a senhora virada para a menina da caixa - levo comida para mim e para o meu touro. É um touro amarelo, lindo de morrer. Ai que lindo que ele é! O meu touro...

 

A menina da caixa continuou a passar os itens no leitor de códigos de barras. Na sua juventude despreocupada, ignorou a conversa da mulher.

 

Eu tambem estava com ganas de ignorar. Mas como estava mesmo à minha frente pude reparar bem. A senhora que encetou a conversa devia ter para aí uns 65 anos. Já com cabelos brancos, pele enrugada, mas com um ar distinto e bem cuidado. Parecendo não reparar na impaciência das pessoas à sua volta, continuou a falar com um vigor estranho:

 

- Bem... na realidade eu não moro com um touro. É um gato amarelo! Mas come tanto, tanto, tanto, que parece um touro. Ai, os sacos de comida que eu tenho que levar para ele. Estoura-me o ordenado. Ai, o maroto. Ai!

 

A menina da caixa olhou para mim rebolando os olhos. As pessoas da fila trocaram olhares de desprezo cúmplice. E eu só pensava: pronto, mais uma louca que fala sozinha...

 

A mulher continuou falando, agora virada para as pessoas da fila, parecendo contente por ter uma plateia:

 

- Sabem que no outro dia umas pessoas conhecidas perguntaram-me se eu não tinha medo de viver sozinha... Eu respondi-lhes: eu não vivo sozinha. Vivo com um gato e com um canário. Já somos três! 

 

Segura nos sacos de compras e vira costas, mas antes ainda atira:

 

- E sabem que mais? Que bem que estamos os três! E que rico concerto fazemos. O canário canta, o gato mia... e eu choro. É mesmo assim. Um a cantar para um lado, outro a miar como um touro e eu a chorar pela minha vida. Olhem, sabem que mais? Adeus!

 

A solidão está em toda e parte. Não podemos ignora-la. E quando queremos fazer de conta que não existe é ela própria que se manifesta e que vem ter connosco. Na rua, no trabalho, na caixa de um hipermercado. Não interessa. 

 

Podemos fazer de conta que não a vemos. Podemos passar para o outro lado da rua quando reparamos nela.

Como se distância conseguisse evitar o contágio. Como se a indiferença fingida conseguisse elimina-la do mapa. 

Podemos tentar tudo. Ou não tentar nada. É igual.

 

Senti-me triste pela solidão da mulher. Pensei redimir-me do meu anterior desprezo e ir atrás dela para a ajudar com os sacos. 

 

Dei um passo na direção do corredor, mas não fui a tempo. Tão depressa como tinha chegado, a solidão personificada atravessou a porta do supermercado e saiu para o frio. Adeus!

 

Adeus solidão. Ou até já.

Que a vida é curta. E eu nem sequer tenho um canário. 

 

 

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