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O Triângulo Perfeito

Sou uma mulher no meio de três homens. Vértices de uma constelação de amor, eles são o meu triângulo perfeito.

O Triângulo Perfeito

Sou uma mulher no meio de três homens. Vértices de uma constelação de amor, eles são o meu triângulo perfeito.

Fevereiro 29, 2020

O Triângulo Perfeito

Ontem fui buscar os meus filhos à escola e, como sempre nos dias em que não chove, regressamos a casa a pé.
Pelo caminho vamos encontrando várias pessoas com quem acabamos por entabular conversa. Umas conhecidas; outras, personagens completamente novas e com quem nunca dialoguei na vida.


Sei que estou a dar um mau exemplo ao meu filho, porque todos sabemos que " não se deve falar com estranhos", mas eu sou de um tempo em que as pessoas se cumprimentavam na rua sem receios. Sou do tempo em que os vizinhos eram uma extensão da nossa casa, do tempo em que não havia perigos e desconfianças. Sou desse tempo e esse tempo mora em mim. Porque gosto de falar com as senhoras que me abordam a perguntar que idade tem o meu filho espantadas por ter apenas 4 anos e "falar como um homenzinho!" E dou conversa aos velhotes que mandam piadas sem piada, com hálito impregnado a vinho apesar de ser ainda meio da tarde, porque adivinho neles tanta solidão. E imagino que um dia posso vir a ser eu "o velho sentado num banco do jardim, a relembrar fragmentos do passado ", como cantava a Mafalda Veiga.


Então eu falo, rio e dou troco às conversas. Como gostaria que um dia me dessem troco a mim. E foi ontem, numa dessas conversas com uma senhora idosa que nos acompanhou na viagem de regresso a casa que percebi que esta coisa do corona vírus não está só a matar humanos. Está também a matar a nossa réstia de humanidade. Que são coisas bem diferentes, como todos sabem.
Então a senhora diz-me que de manhã tinha estado no hipermercado Pingo Doce. Explicou -me que estava toda a gente muito relaxada a fazer compras até que, de repente, entra no estabelecimento uma senhora chinesa.
Assim que as pessoas repararam na entrada dessa senhora, começaram a fugir e afastar-se para os lados acabando por deixar a chinesa completamente só, na zona das frutas e hortaliças.
- Mas a senhora chinesa deve ter ficado muito aborrecida com isso, não?- perguntei, chocada, à velhinha que me contou a história.
- Paciência menina! Paciência! Não interessa como a chinesa se sentiu. Quando chega à hora, temos que salvar a nossa pele e dos nossos! E por isso... olhe... fugimos todos dela!
E depois contou-me das lojas de chinês a ficar vazias, falou-me da vizinha chinesa com quem agora se evitava cruzar no elevador e outras coisas que eu já não ouvi.
Coisas que não ouvi porque a minha mente tinha ficado presa àquela imagem. A imagem da senhora chinesa completamente sozinha na zona das hortaliças, uma cena caricata e completamente non sense que podia ser retirada de um livro de Haruki Murakami .
Valeria a pena explicar que o vírus não ataca apenas chineses e que estes não são os únicos portadores do mesmo?
Valeria a pena explicar-lhe que um dia o Vírus vai chegar aos portugueses. E depois? Vamos andar a fugir uns dos outros? Mesmo sem saber se estamos contaminados?
Eu sei que este vírus é perigoso e "todo o cuidado é pouco, menina!", mas não consigo evitar pensar se esta reação perante os chineses não será racismo, mascarado de medo. Discriminação mascarada de instinto de sobrevivência.
Somos um ser sociável. E andamos todos tão sós! A usar tantos pretextos para afastar o outro.
A bem dizer já andamos de máscara. A máscara da indiferença. Quem somos nós?
"Sabes eu acho que todos fogem de ti para não ver, a solidão que um dia irão viver ", continuava a canção.

Nao há nada mais angustiante que um velho triste e de olhar perdido, num banco de jardim. A não ser talvez uma chinesa a deambular sozinha no silêncio repentino de um supermercado.

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