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O Triângulo Perfeito

Sou uma mulher no meio de três homens. Vértices de uma constelação de amor, eles são o meu triângulo perfeito.

O Triângulo Perfeito

Sou uma mulher no meio de três homens. Vértices de uma constelação de amor, eles são o meu triângulo perfeito.

Maio 13, 2020

O Triângulo Perfeito

Durante quase 50 dias cumprimos o isolamento de forma criteriosa. Só saímos para dar uns passeios na floresta ou à volta do prédio e durante esse tempo não houve contacto com ninguém. Nem mesmo da família.

Vasco e Xavier passaram quase dois meses sem contactar com os avós.
Mas já devem ter reparado que nos últimos dias isso mudou.

Devem ter visto pelas fotos desta página e também do instagram que os miúdos têm andado pelo jardim dos avós paternos (e que bem lhes tem sabido). E já sabíamos que do jardim ao contacto oficial... era apenas um pequeno passo.

Foi impossível evitar que os avós tocassem nos netos e vice-versa. Ainda tentámos, mas rapidamente desistimos.

Com os avós maternos o primeiro contacto foi no dia 2 de maio.

Claro que eata opção é discutível... é verdade, que eles podiam passar mais 50 dias sem estar com os avós, mas achámos que já era demais. Estava a ser difícil para todos!

Os dados estatisticos sobre o número de infetados e de mortes nos últimos tempos reforçaram a nossa decisão.
Sabemos que no inverno será provável uma nova vaga de covid e queremos aproveitar pelo menos os meses de verão na companhia dos avós.

Claro que temos medo. Muito medo.

Mas, em conjunto, decidimos que estava na altura de retomar alguma normalidade.
Digo "alguma" porque neste momento os miúdos continuam a não ter contacto com ninguém. Não brincam com amigos, não contactam com os tios, nem com os primos... apenas com os avós.

No dia 18 começa a creche mas nós decidimos que o Xavier para já não vai. Fazemos isto para aumentar a segurança no contacto com o avós.

Vamos saindo do isolamento aos poucos, mas sempre com muito cuidado.

Esta decisão que tomámos foi uma decisão de conjunto, depois de muito diálogo com a família e sentimos que foi o melhor neste momento.

Se daqui a uns tempos tivermos que voltar ao isolamento total.. . Também o faremos certamente. Nada é definitivo...

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Abril 25, 2020

O Triângulo Perfeito

Caro Isolamento Voluntário,

estamos juntos apenas há 42 dias, mas deste lado parece uma eternidade. Por isso é que eu sei que esta "relação " não vai funcionar.
Em primeiro lugar, és um tipo ciumento. Não me deixas contactar com quase ninguém! Estás a distanciar-me de amigos e família. Quanta insegurança desse lado, hein?!

Sinto saudades do convívio, da alegria e das pessoas. E tu nem me deixas sair de casa!
Estou a anular-me nesta relação, é o que é... nunca pensei chegar a isto.

Ainda por cima, tens a mania das limpezas... Queres ver tudo bem limpo e desinfetado.
Mandas-me lavar as mãos várias vezes ao dia, higienizar com gel... andar de luvas... pfff. Are you insane??

Estou a ficar can-sa-da.

Não contente com tudo, estabeleceste rotinas para a minha vida. Só uma ida ou outra ao supermercado é que vai atenuando a monotonia. De resto...

Não é suposto uma relação ser divertida? Pois esta não é! Os dias parecem-me todos iguais.

Desde que entraste na minha vida, querido isolamento, deixei de sorrir tantas vezes. Sinto-me cada vez pior. E até estou a engordar!

As pessoas queixam-se que eu ando amuada e não quero ser assim. Quero voltar ao que era antes de te conhecer (sobretudo, a parte do "mais magra")

Um dia "vamos todos ficar bem", mas só depois de saíres da minha vida.

Vamos acabar?

Não és tu. Sou eu.
Eu é que estou farta.

Ah, e descobri que ainda estou apaixonada pelo meu ex. Chama-se "convívio". Ultimamente, só penso nele. Lamento.

E é isto.
Adeus.

PS- Quando saíres, desinfeta o puxador da porta.

Abril 05, 2020

O Triângulo Perfeito

Sim... no meio de tantas notícias más que nos rodeiam, esta é mesmo uma notícia fantabulástica!
Desde que deixou de mamar durante a noite, o Xavier começou a dormir muito melhor. E agora que passou para o quarto do irmão, contrariamente ao que supúnhamos, ainda dorme mais.
Deita-se por volta das 21h30 e só volta a acordar por volta das 7h00.
Isto é algo que nos deixa tremendamente felizes.
Seria difícil levar esta quarentena a bom porto, se para além do isolamento ainda tivéssemos que levar com noites mal dormidas...
Neste momento, o Xavier vai mamando durante o dia (e tem-se aproveitado bastante da minha presença, a modos que tem mamado muito mais do que quando estava no infantário) e anda super feliz.
Já há um mês que temos noites tranquilas. Bem precisávamos, uff! 

Março 31, 2020

O Triângulo Perfeito

A covid-19 poderá ter mudado muitas coisas neste mundo. Mas há coisas que continuam iguais.
Continuam a existir pessoas com dificuldades e a precisar da nossa ajuda. Agora, se calhar, mais do que nunca!

Ontem foi dia de dar o meu modesto contributo ao Refood.

E vocês? Já ajudaram a Refood a ajudar quem mais precisa? Se cada um de nós contribuir um pouquinho, no final "tudo irá correr bem".
Abraço!❤️🌈

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Março 22, 2020

O Triângulo Perfeito

Os meus filhos passaram a acordar às oito ou às nove da manhã, em vez das sete da manhã habituais.
Vão para a sala, brincam um com o outro e já não há ninguém a dizer "despacha-te que temos que ir para a escola!".
Tomam o pequeno-almoço com calma e continuam a brincar, explorando agora com muito mais detalhe os brinquedos que receberam nos anos e no natal.

Fazemos brinquedos novos com material reutilizado.
Em apenas 7 dias começámos a olhar para todas as caixas, fitas, plásticos e recipientes de outra forma, percebendo que esses objetos podem ser transformados noutras coisas.

Jogamos bowling com pacotes de leite e criamos fantoches com rolos de papel higiénico. Brevemente, vamos transformar pequenas caixas em apartamentos de uma mini cidade.

Temos sessões de culinária todos os dias. Já confeccionámos bolos, panquecas, mousse de chocolate, baba de camelo e outras tantas iguarias que antes do isolamento raramente apareceriam cá em casa, por falta de tempo.

Tempo... temos TEMPO para tudo agora! Até para nos zangarmos e fazermos novamente as pazes.

Antigamente, chegávamos tarde e não queríamos zangar-nos com os nossos filhos. Mesmo quando eles se portavam mal.
Tínhamos conflitos internos na hora de os pôr de castigo, porque só estávamos com eles algumas horas por dia e não queríamos passar essas horas chateados uns com os outros.

Queríamos que aqueles finais de dia fossem repletos de boas lembranças e não de sermões e castigos... a verdade é essa.

Mas agora... agora sabemos que podemos educar, dialogar, resmungar e até punir alguns comportamentos... e não há problema. Não há problema, porque também temos tempo para sermos felizes de novo, para voltarmos a ficar bem uns com os outros.

Parte da culpa que os pais carregavam no dia-a-dia... desapareceu. E os miúdos até já colaboram na limpeza da casa, sem que nos sintamos uns cretinos por lhes passar um paninho do pó para as mãos )

Em toda esta semana... o Vasco nunca falou da escola. Nunca referiu ter saudades dos amigos (embora eu saiba que quando os vir, vai pular de alegria). Nunca manifestou desânimo por estar em casa com a mãe.
Antes pelo contrário!
Vejo-o feliz, saltitante e com mais disponibilidade para aprender coisas.
Fazemos puzzles, vemos vídeos sobre o corpo humano, desenterrámos os jogos de cálculo, números e letras que ele nunca até agora quis jogar. Temos pequenas lições de inglês e lemos imensas histórias. E até já fomos passear para uma floresta silenciosa e verdejante, suficientemente isolada do mundo para não sermos contagiados pelo vírus.

O Xavier anda por aqui por casa todo contente, sempre agarrado às minhas pernas e a seguir-me para todo o lado, como um cachorrinho feliz.

E vocês perguntam: mas então, nunca fizeste nada disso quando não existia esta pandemia?
Nunca fizeste jogos?! Nunca cozinhaste com os miúdos?! Nunca reutilizaste materiais?

Claro que sim!! Mas era tudo mais pontual e fragmentado. Entre o trabalho e as diversas obrigações que fazem parte da vida de um adulto, acabávamos por fazer tudo... a correr.

E portanto...

Há milhares de vidas humanas a terminar por causa deste vírus.
Há avós que já não estão com os netos desde que o isolamento começou.
Há médicos e enfermeiros no limite das suas forças a tentar ajudar todos os que enfrentam os efeitos da pandemia.
Há toda uma economia a desmoronar-se e o nosso ganha-pão está a derrocar com ela. É tudo tão mau!!

Mas os FILHOS (a maior parte dos filhos...) nunca estiveram tão FELIZES. A verdade é essa.

Por isso digam-me...

Como é que algo tão triste como um vírus mortífero pode, em determinados momentos (e diferentes contextos), originar felicidade?

Se está tudo tão errado... como pode parecer tão certo?

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Março 18, 2020

O Triângulo Perfeito

Tenho recebido alguns convites para me juntar a grupos de trabalho online, e-learning, plataformas virtuais, etc.
Agradeço o convite, mas quero dizer-vos uma coisa... estou sozinha em casa com dois miúdos de 1 e 4 anos! O marido ainda vai trabalhar.

Acham mesmo que tenho tempo para fazer o que quer que seja? 😉 Só consigo ter um tempinho livre lá para as 11 da noite e aí já estou completamente de rastos.

O Xavier ainda dorme a sesta e o Vasco... O Vasco precisa de atenção quando o mano está a dormir.

É entre as 15 e as 17h30 que consigo finalmente por o Vasco a pintar, a fazer puzzles, a estudar, a desenhar, enfim, a fazer algo útil. Porque quando o maninho está acordado as brincadeiras são adaptadas aos dois e há brigas constantes porque o bebé quer pegar em tudo. 😥

Por isso, sou forçada a concluir:: se para uns a quarentena vai saber a férias (séries de netflix, leitura de livros, sestas no sofá) para outros, será uma espécie de licença de maternidade tardia, sem fim à vista e com a agravante de não poder sair de casa 😉

Antes que comecem com coisas... eu adoro os meus filhos, adoro passar tempo com eles, está a ser muito fixe em imensos sentidos, eles estão a adorar, estamos a reforçar laços e blá blá. Mas não está a ser fácil fazer teletrabalho com eles. Só isso :)

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Março 15, 2020

O Triângulo Perfeito

Os nossos bisavós viveram no tempo da primeira guerra mundial, evento que mobilizou milhares de soldados.
Os nossos avós, por sua vez, vivenciaram a segunda guerra. Um acontecimento que pôs meio mundo a combater!
E a nossa geração? O que temos nós para contar?
Bem... Nós experienciámos a passagem do covid -19 pelo planeta. Um evento que fez o mundo parar.

Durante muito tempo, pediram-nos para agir heroicamente. Para fazer coisas! Para irmos para a rua com cartazes, para fazermos manifestações pelo ambiente, palestras e caminhadas a favor disto ou daquilo...
Mas isso foram outras lutas e outras guerras!

Nesta guerra... herói é quem fica em casa. Quem se isola e respeita as indicações.

Pedem-nos novamente para lutar. Mas desta vez a luta é em nossa casa. É aí que devemos permanecer se queremos ser verdadeiros heróis.

Por isso... fica em casa e não faças mais nada.
E se tudo correr bem, um dia vais contar aos teus netos sobre a única guerra que se travou sem soldados, sem mísseis, sem tanques e sem metralhadoras.
A única guerra que ao isolar cada indivíduo na sua casa... nos uniu como nunca.
A única guerra que nos tornou mais fortes

Março 01, 2020

O Triângulo Perfeito

Podem até achar que não. Mas nos meus tempos de adolescente, início dos anos 90 do século passado, os desafios impostos aos pais eram praticamente os mesmos de hoje.
Garantir a segurança das crianças... semear bons valores, promover o sucesso na escola e... claro está, afastar-nos das "más companhias"!
Eram estas as preocupações dos nossos progenitores.
Mas havia uma diferença abismal entre aquilo que se chamavam "más companhias" no passado, e o conceito de más companhias de hoje.
Nos anos 90, as más companhias eram pessoas reais, com quem nós, efectivamente, contactávamos. Podiam ser amigos da rua, colegas de escola ou membros da equipa de futebol... Eram rostos reais, aqueles que atemorizavam os nossos pais e os levavam muitas vezes (em último recurso) a mudar-nos de turma ou de escola...
As más companhias eram o Manel que nos queria iniciar nos charros e nos levava para trás do pavilhão da escola com uma palete de tentações no bolso. Era a Margarida, rapariga sabida e muito rodada nas lides da sensualidade, que nos despertava a curiosidade para assuntos que nos faziam corar.
Era o Pimenta, duas vezes repetente e que acabou por ir parar à Tele-Escola, que nos aliciava a ir roubar coisas para o Pingo Doce... só porque dava pica.
Esses eram os amigos que os nossos pais queriam ver longe, longeeeee!
E era por causa desses amigos que levávamos alguns bons tabefes, ora porque começávamos a cantar de galo como o João (vê lá se baixas a bolinha, que cá em casa não cantas!) ora porque faltávamos a uma aula para ir com a Sónia comprar gomas à loja do senhor Jacinto.

Hoje não.

Os demónios que causam insónias aos pais já não se chamam coisas normais. Chamam-se Dr. X, Super Zen e coisas que tal.
Já não são miúdos da escola: são youtubers, pessoas virtuais.
Já não são adolescentes como o nossos filhos! São muitas vezes adultos, se bem que apenas em idade cronológica.

Os heróis dos nossos filhos já não são atores de cinema.
Os exemplos que os nossos filhos querem seguir, já não são os exemplos dos pais, e a verdade é que bocejam de tédio com as lições que lhes queremos ensinar.
A sabedoria que os nossos filhos querem assimilar, já não é a dos professores. É a sabedoria de um indivíduo qualquer que decidiu que era giro ser influencer.

Quando um youtuber acaba com a sua namorada em direto, fazendo-a chorar baba e ranho e esse vídeo tem milhares de visualizações.... isto dá um bocado de medo.

Eu não vou dizer que "no meu tempo é que era bom". Nós também tínhamos a nossa dose de parvalheira, mas pelo menos éramos originais.

Quando o David se lembrou de queimar borrachas numa aula de oitavo ano e tivemos todos que sair da sala porque ninguém aguentava o cheiro a queimado... isso foi assim a modos que indecento-parvo.
Mas pelo menos a ideia foi dele (terá registado a patente?), não a copiou de nenhum canal de youtube.

Hoje, os youtubers ensinam História, Geografia e Ciências aos nossos miúdos. Eu própria uso muitos vídeos de Youtubers "bonzinhos" nas minhas aulas. E os alunos adoram.
Mas depois também há aqueles que ensinam racismo, desigualdade e desconsideração. E está tudo metido no mesmo saco; o saco da internet.

Podemos mudar o nosso filho de turma ou de escola, mas estes "amigos da onça" vão acompanhá-lo sempre. Estão metidos no seu telemóvel, que pode ser consultado a qualquer momento e a qualquer hora. E parecem levar sempre a melhor.

Tempos difíceis, aqueles em que vivemos. Mas não vale a pena chorar pelos riscos que os nossos filhos correm na internet.
Estanquemos as lágrimas de desespero. E entreguemos todos os lenços de mão àquela rapariga desolada, cujo namorado youtuber humilhou em direto.

Neste momento, ela será ex-namorada de um dos rapazes mais famosos imbecis do país.

Choremos por ela.

Fevereiro 29, 2020

O Triângulo Perfeito

Ontem fui buscar os meus filhos à escola e, como sempre nos dias em que não chove, regressamos a casa a pé.
Pelo caminho vamos encontrando várias pessoas com quem acabamos por entabular conversa. Umas conhecidas; outras, personagens completamente novas e com quem nunca dialoguei na vida.


Sei que estou a dar um mau exemplo ao meu filho, porque todos sabemos que " não se deve falar com estranhos", mas eu sou de um tempo em que as pessoas se cumprimentavam na rua sem receios. Sou do tempo em que os vizinhos eram uma extensão da nossa casa, do tempo em que não havia perigos e desconfianças. Sou desse tempo e esse tempo mora em mim. Porque gosto de falar com as senhoras que me abordam a perguntar que idade tem o meu filho espantadas por ter apenas 4 anos e "falar como um homenzinho!" E dou conversa aos velhotes que mandam piadas sem piada, com hálito impregnado a vinho apesar de ser ainda meio da tarde, porque adivinho neles tanta solidão. E imagino que um dia posso vir a ser eu "o velho sentado num banco do jardim, a relembrar fragmentos do passado ", como cantava a Mafalda Veiga.


Então eu falo, rio e dou troco às conversas. Como gostaria que um dia me dessem troco a mim. E foi ontem, numa dessas conversas com uma senhora idosa que nos acompanhou na viagem de regresso a casa que percebi que esta coisa do corona vírus não está só a matar humanos. Está também a matar a nossa réstia de humanidade. Que são coisas bem diferentes, como todos sabem.
Então a senhora diz-me que de manhã tinha estado no hipermercado Pingo Doce. Explicou -me que estava toda a gente muito relaxada a fazer compras até que, de repente, entra no estabelecimento uma senhora chinesa.
Assim que as pessoas repararam na entrada dessa senhora, começaram a fugir e afastar-se para os lados acabando por deixar a chinesa completamente só, na zona das frutas e hortaliças.
- Mas a senhora chinesa deve ter ficado muito aborrecida com isso, não?- perguntei, chocada, à velhinha que me contou a história.
- Paciência menina! Paciência! Não interessa como a chinesa se sentiu. Quando chega à hora, temos que salvar a nossa pele e dos nossos! E por isso... olhe... fugimos todos dela!
E depois contou-me das lojas de chinês a ficar vazias, falou-me da vizinha chinesa com quem agora se evitava cruzar no elevador e outras coisas que eu já não ouvi.
Coisas que não ouvi porque a minha mente tinha ficado presa àquela imagem. A imagem da senhora chinesa completamente sozinha na zona das hortaliças, uma cena caricata e completamente non sense que podia ser retirada de um livro de Haruki Murakami .
Valeria a pena explicar que o vírus não ataca apenas chineses e que estes não são os únicos portadores do mesmo?
Valeria a pena explicar-lhe que um dia o Vírus vai chegar aos portugueses. E depois? Vamos andar a fugir uns dos outros? Mesmo sem saber se estamos contaminados?
Eu sei que este vírus é perigoso e "todo o cuidado é pouco, menina!", mas não consigo evitar pensar se esta reação perante os chineses não será racismo, mascarado de medo. Discriminação mascarada de instinto de sobrevivência.
Somos um ser sociável. E andamos todos tão sós! A usar tantos pretextos para afastar o outro.
A bem dizer já andamos de máscara. A máscara da indiferença. Quem somos nós?
"Sabes eu acho que todos fogem de ti para não ver, a solidão que um dia irão viver ", continuava a canção.

Nao há nada mais angustiante que um velho triste e de olhar perdido, num banco de jardim. A não ser talvez uma chinesa a deambular sozinha no silêncio repentino de um supermercado.

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Janeiro 30, 2020

O Triângulo Perfeito

Fui cortar o cabelo. 

Tentei fazer aquele corte da moda, tipo Bob.

Devia estar mais curto (para estar ainda mais dentro da moda deste ano), mas ainda estou traumatizada com um corte que fiz há uns anos e que me fazia parecer a Angela Merkel.

Por isso, ficou um bob semi-moda, nem carne nem peixe. Mas eu gosto eh eh. E com as madeixas que fiz recentemente, acho que até ficou giro.

Que dizem?

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