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O Triângulo Perfeito

Um blogue de pessoas imperfeitas. A viver num triângulo perfeito.

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Os primos de França

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Os primos de França vieram cá estas férias, mais uma vez. Tem sido assim desde que me lembro de ser gente. 

Na minha infância, vinham acompanhados pelos pais. Ficavam cerca quinze dias, no mês de agosto, e não se importavam nada de cá estar. 

Eu e o meu irmão ansiávamos pela chegada deles, como as crianças à espera de um espetáculo do Panda...

Adorávamos aquelas férias!

 

A língua nunca foi um entrave: O meu tio (que é português), casou com uma mulher francesa, mas teve a inteligência e a sensibilidade necessária para ensinar os filhos a falar português. Admiro-o muito por isso.

 

Nunca falámos com os meus primos em francês. Ás vezes, experimentávamos umas frases aprendidas na escola. Mas apenas por diversão.

Os meus primos, apesar de nascidos em França, sempre fizeram questão de ser entendidos na nossa língua. Isso deve-se também à influência da mãe, que apesar de francesa sempre se interessou muito por nós e pela nossa cultura.

 

O meu primo D. é da idade do meu irmão. A prima K. é da minha idade. 

 

O meu irmão sempre se deu bem com o meu primo D. Acho que com os rapazes é sempre assim. As coisas são sempre simples. Partilhavam o gosto pelo futebol, pelas miúdas e pela aventura. E isso sempre bastou.

Lembro-me de o meu irmão, na adolescência ter ido passar umas férias a França, a casa dos primos. Eu era mais nova, por isso não fui.

Fiquei cheia de inveja! Só há dois anos é que fui conhecer a casa dos meus primos. E ao olhar para a piscina, lembrei-me de uma foto que o meu irmão tinha tirado nas tais férias que foi lá passar.

Só pensava no quanto ele se devia ter divertido...

 

A minha prima, apesar de ter a minha idade, sempre foi muito mais adulta do que eu. E trazia sempre coisas novas para me mostrar. Coisas que eu nunca tinha experimentado. Achava-a extraordinária e ao mesmo tempo estranha.

 

Quando andávamos na escola primária, houve um verão em que me mostrou o seu caderno. Fiquei espantada com a dificuldade dos exercícios de Matemárica que os miúdos franceses já faziam com aquela idade. 

"Nós somos muito mais espertos e temos uma escola melhor", dizia-me ela. 

E eu acreditava, sem protestar. E sem perceber a ligeira arrogância.

 

Éramos cão e gato. Ora muito amigas, ora a discutir. A prima Karine nunca chorava. Já eu era uma chorona de primeira e andava sempre a fazer queixinhas aos adultos que a prima "me tinha penicado", "agarrado", etc. etc,

Havia uma grande dose de drama nesses verões. Muitas emoções fortes.

 

Os anos foram passando e chegámos à fase da adolescência. Aí, as coisas começaram a mudar um pouco. Os meus primos, que até aí vinham com gosto para Portugal... deixaram de achar piada às férias lusas.

 

A minha prima vinha literalmente arrastada. Achava Portugal um país "muito parado" (talvez porque metade das férias era passadas na aldeia da nossa avó, tendo apenas por companhia as vacas e os porcos), queixava-se das estradas e das portagens. Dizia-me que lá não havia portagens e que não tinham que pagar para andar de carro.

 

Isto eram o início dos anos  90. Não sei se é verdade. Era o que ela me contava. 

 

Outra queixa frequente era a "falta de bolos nas pastelarias". Segundo o que percebi, os nossos bolos "eram todos iguais " e "tinham pouco creme". Esta parte concordo. Os nossos bolos são uma seca.

 

Por último, havia a parte do "Fado", que era um tipo de música a abolir no mundo por consistir em "mulheres a gritar e a gemer".

 

 

Ah! Lembrei-me agora de outra queixa que era sobre os canais de televisão. 

Quanto a este último ponto, o problema era a oferta.  Nós só tínhamos dois canais. Eles "já" tinham quatro.

- Como é possível vocês sobreviverem só com dois canais? - perguntava-me ela.

De facto não sei. Quem me tira as séries da FOX e da AXN, tira-me tudo.

 

Tirando a parte das queixas (e de ter que levar com elas durante todas as férias) eu adorava a vinda da minha prima a Portugal.

Ela estava, como já disse, a léguas de evolução relativamente a mim. E eu devorava, como cão faminto, todas as coisas que ela me dizia. 

 

Com doze anos, eu ainda brincava com bonecas. A minha prima já pintava as unhas, maquilhava-se com um rímel que lhe ficava super bem e falava dos rapazes da sua escola. 

 

Com quinze, dezasseis anos, já fumava. Na Costa da Caparica, a seguir ao jantar, a minha prima dizia que precisava de ir caminhar na rua para fazer a digestão.

Davamos sempre um passeio na cidade, enquanto os pais arrumavam a cozinha. Ela procurava um café mais escondido e ... zás! Sacava do cigarro!

 

- Queres? - Perguntou-me uma vez. Mas eu não estava interessada. Nunca estive.

E, note-se, achava uma seca ter que ir fazer caminhadas de quilómetros na Caparica só para encontrar um lugar suficientemente longe, onde o "crime" não pudesse ser detetado! :))

 

Foi algures numa dessas férias, que a K. me começou a falar de um namorado muito especial. Contou-me uma série de coisas que me deixaram a modos que bastante corada e eu senti-me um bocado parvinha.

Comparado com aquilo que ela me disse, o que eu tinha para lhe contar sobre a minha experiência não era minimamente interessante. If you know what i mean...

 

(basicamente a conversa desenrolava-se nestes termos: Ai tu só fazes isso e isso? Ah.. eu já faço isto, e aquilo e aqueloutro... E já faço o aqueoutro desde os x anos. E em França toda a gente faz..)

 

Percebi que estávamos tão distantes em espaço físico (França/Portugal), como em mentalidade. Eu era mesmo inocente!

E pensei que a partir daí a coisa fosse a piorar. Mas enganei-me.

 

Passou-se a adolescência. Chegamos a jovens. E durante uma série de anos, os primos deixaram de vir a Portugal. Julgo que devem ter estado a curar o trauma daqueles anos todos em que os meus tios os arrastavam contra vontade.

Portanto, os meus tios vinham passar férias a Portugal, mas os filhos ficavam em França.

 

Durante esse período, os meus primos casaram (a minha prima, casou com o tal namoradito que afinal era mesmo especial) e tiveram filhos lindos, simpáticos, amorosos e que... adoram Portugal!

 

Há coisa de sete anos, o primo David começou a vir a Portugal passar férias. A minha prima, passado uns anos seguiu-lhe os passos e também começou a vir amiúde.

Ora sozinhos, ora com casais amigos, a verdade é que têm viajado pelo país inteiro. E já não acham o país secante e feio.

Fico orgulhosa!! Não sei se foram os meus primos que mudaram, ou se foi Portugal que mudou e se tornou um país melhor. Com mais interesse. Mais encantos!

 

Talvez seja um pouco das duas coisas.

 

Portanto, agora...

 

Todos os anos no mês de agosto, os primos passam pela aldeia (onde infelizmente já não existe uma avó para os receber), vão à praia, correm as feiras todas, tomam banho nos parques aquáticos e descobrem até lugares que nem os portugueses conhecem.

 

Gostam tanto de cá vir, que o meu tio até decidiu comprar cá uma casa (até aí, ficavam instalados na casa de familiares). 

E gostam tanto de passear, que o meu tio também decidiu comprar um carro "para ficar cá, na garagem, à espera deles".

 

E eu gosto tanto que eles venham que, se pudesse, dava-lhes guarida todos os dias. 

Vivemos num país diferente. Tivemos experiências diferentes, histórias diferentes, percursos profissionais diferentes. 

Separa-nos a distância e toda uma cultura. 

Mas estamos unidos por laços invisíveis. Teremos sempre a recordação daqueles quentes verões de agosto. 

Temos, para além do passado, as férias do presente. Do agora. Os momentos em que nos juntamos (como ontem) para rir, conversar e passar um bom bocado.

Eles tiveram filhos. Eu também. 

E os nossos filhos todos juntos riem, brincam, saltam, choram e discutem na minha sala de jantar como nós o fazíamos há 30 anos.

O futuro também é nosso. Tenho a certeza que os nossos filhos vão arranjar sempre formas de se encontrar e não vão deixar morrer esta ligação.

 

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