Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Triângulo Perfeito

Um blogue de pessoas imperfeitas. A viver num triângulo perfeito.

O Triângulo Perfeito

Um blogue de pessoas imperfeitas. A viver num triângulo perfeito.

O sono de um bebé em três episódios

EPISÓDIO 1

 

O sono de um bebé é como um leão feroz.

 

Quando o domador de leões começa a achar que a fera está domesticada... o leão ruge, afia as garras e mostra que é o rei da selva. Ninguém manda no leão.

(...)  

 

Quando o V. nasceu pareceu-nos um bebé calmo e dorminhoco. Pelo menos, assim o julgávamos quando ainda estava no hospital. Contudo, no segundo dia após chegar a casa, chorou desalmadamente durante cinco horas seguidas.

 

Ainda hoje não sabemos o que lhe deu. Talvez fosse a fome, a mudança de ambiente, o frio, o calor... Não conseguimos perceber.

 

O que é certo é que demorou bastante tempo a adormecer.

 

Tentei de tudo para que ele ficasse mais confortável. Dei-lhe de mamar, dei-lhe (porque todos insistiam ser fome) leite de suplemento, aqueci a casa, esfriei a casa, embalei-o devagar, embalei-o depressa... nada. O pai, o avô, a avó vieram sucessivamente e, cada um a seu modo, tentaram dar-lhe conforto. Nada. Cada vez berrava mais.

 

Depois do almoço começaram a chegar primos e tios a nossa casa para ver o bebé. E eu ainda com ele no quarto a tentar que se acalmasse.

 

Às três da tarde, esgotada, cansada, desesperada, olhei-o nos olhos e fiz-lhe um ultimato. Pedi-lhe a ele e a todos os santinhos um pouco de paz. Enrolei-o num cobertor fofo (que ainda hoje é o seu preferido) e o V., como que por magia... adormeceu. 

 

Coloquei-o na alcofa com jeitinho e deixei que o meu marido o levasse para a sala, onde tios, primos e amigos queriam ver o novo membro da família.

 

Dizem que ele dormiu como um anjo durante o resto da tarde. Não vi.

Dizem que chegaram amigos a minha casa e que eu não fui à porta para os receber. Não me lembro.

 

No meu quarto, depois do V. adormecer, passei o resto da tarde da chorar. Tinha estado durante 5 horas a conter o choro, tentando ser forte. Mas assim que o meu bebé adormeceu, todo o nervosismo que tinha acumulado durante aquelas horas... libertou-se!! Foi como se uma torneira se abrisse e eu não conseguia mais fecha-la.

 

Foi nesse dia que eu senti, pela primeira vez, o desespero de uma mãe.

 

Senti-me mal por não ter recebido as meus convidados convenientemente, senti-me fraca por deixado para o meu marido essa tarefa. Mas naquele dia, eu chorei tantas lágrimas que dava para encher uma Piscina Olímpica.

 

De vez em quando ainda pensava: vou à sala falar com as pessoas. Eu tenho que ir lá. Mas mal via a minha cara vermelha e os meus olhos inchados ao espelho... desistia.

 

No meio do desespero só uma coisa me dava consolo: 

Eu tinha finalmente descoberto como fazer o meu filho dormir. Bastava enrola-lo num cobertor fofinho! 

Ou não.

EPISÓDIO 2

 

O sono de um bebé é como o totobola. 

Podemos achar que percebemos muito de futebol. Podemos acreditar que os resultados são previsíveis e que é possível colocar as cruzinhas no sítio certo. Podemos pensar que a vitória é certa.

Mas nunca ganhamos...

 

(...) 

 

Nas primeiras semanas de vida do Vasco, adotei religiosamente a estratégia de o enrolar bem apertadinho num cobertor fofo.

 

 

Depois do episódio das "5 horas de choro" acreditava ter descoberto a poção mágica que me ia livrar do suplício vivido por amigas minhas no que toca a adormecer bebés. 

 

A medida resultou bem, inicialmente, mas depois o V. deixou de querer dormir. Passava todo o dia acordado, muitas vezes chorando. Fazia sestas minúsculas e, por volta das 19 horas... adormecia de exaustão. 

 

O meu marido chegava a casa no fim do dia e encontrava, invariavelmente o V. a dormir.

 "Então, de que te queixas? Está a dormir como um anjo"- comentava.

E eu sem saber como lhe explicar que durante todo o dia o cenário tinha sido muuuiiiito diferente. 

 

Nos meses seguintes fui passando por várias estratégias que a seguir passo a enumerar (não as usei por esta ordem e às vezes usava mais do que uma ao mesmo tempo).

 

1- Suplementar sempre a mamada com fórmula (porque todos me chateavam dizendo que podia ser fome)

2- Embalar no carrinho/cock

3- Embalar ao colo

4- Deixar na caminha às escuras

5- Deixar na caminha em ambiente semi-escurecido

6- Deixar na caminha com luminosidade (!)

7- Levar para a caminha e falar com ele

8- Arranjar-lhe uma "naninha" de estimação. 

9- Deixa-lo chorar (sim, fiz isso uma vez, e senti-me a pior mãe do mundo)

10- Pô-lo a ouvir os "sons do útero", música clássica, Rádio Xl Romântica, Smooth FM, Antena 2...

 

A conclusão a que cheguei é que as estratégias umas vezes resultavam e outras não. E quando eu me estava já a afeiçoar a uma estratégia... ela deixava de resultar e tinha que mudar para a outra. 

 

Não consegui vencer o "jogo do sono". Aliás, creio que no jogo do sono nunca há vencedores. Temos por vezes a ilusão da vitória, mas é apenas isso. Uma ilusão. 

 

EPISÓDIO 3

 

O sono de um bebé é como os feriados.

Desejamos arduamente que cheguem, mas  depois não sabemos o que fazer com eles!

 

(...)

 

Tinham-me dito para a aproveitar bem os momentos em que o meu baby estava a dormir. Aproveitar para descansar, para fazer eu própria uma sesta.

 

Não sei porquê, mas nunca consegui cumprir com a recomendação. Talvez porque nunca fui pessoa de dormir de dia, sempre que o Vasco adormecia ( e começou a fazer sestas maiores com o tempo), em vez de me ir deitar... punha-me a lavar a loiça, a estender roupa, a cozinhar...

 

Conclusão: cheguei a um ponto em que já estava extremamente cansada. E tudo por culpa minha. 

 

Hoje em dia, ainda é mais engraçado. Como o Vasco está naquela fase giríssima em que faz imensas gracinhas, quando ele está a dormir... sentimos a falta dele!

 

Se o Vasco dormir uma hora, achamos pouco. Se dormir uma hora e meia, achamos bem. A partir de duas horas começamos a ficar ansiosos. 

 

Então... e ele não acorda?- diz um.

Já está a dormir há muito tempo...- diz outro.

Vai lá vê-lo. Vê se está a respirar bem- diz o primeiro.

 

Parecemos o burro do Shrek na versão "Já acordou? Já acordou?", em vez do célebre "Já chegámos? Já chegámos".

Tanto tempo à espera do soninho do Vasco. E depois, parecemos baratas tontas à espera que ele venha de novo para os nossos braços.

 

O sono de um bebé é algo de imprevisível, desafiante e complexo.

Mas mais complexos ainda somos nós, os pais. 

Não acham? :)